Gorgonzola (+18) – Conto

Deveria me contentar com o fato de ser um amplificador, apenas, para as mulheres, mas se não for pra correr o risco de me apaixonar por quem não deveria, não teria graça alguma. Sou bem ruim de elogio, sempre me esqueço de dizer que estão lindas, quando estão mesmo, só que, ainda que esqueça de dar essa segurança, quando necessitam e, claro, merecem, dou algo que poucos conseguem: sossego.

Sempre aparecem mulheres novas em minha vida, mas os antigos casos e amizades da época de adolescência, que acumulavam um desejo enrustido, depois de passarem por relacionamentos, muitas vezes abusivos, outras vezes, apenas depressivos, me procuravam. parece que tenho um slogan colado na testa, escrito: “liberto-as”.

Recebo uns pedidos esquisitos ,de tanto em tanto, mas não externo qualquer expressão de espanto, ou algo que fosse enclausurar qualquer vontade, como, provavelmente fizeram seus parceiros, quando mostraram seus lados mais instintivos e bestiais.

Um amplificador! E também, quem sabe, uma carteira de habilitação, que as permite conduzir suas vidas sozinhas. Depois de mim, não precisavam de mais ninguém. Nem mesmo de mim.

Isso já me chateou. Hoje aceito essa ocupação, que está mais para estágio não-remunerado.

No momento estou escrevendo 4 contos enquanto leio 3 romances, simultaneamente. não estou dizendo que será uma obra de arte, nem nada, mas, certamente estou inspirado. o sangue que saiu das entranhas, voltou de forma massiva pra massa encefálica. passei a manha inteira com uma dor fudida na barriga que não me deixou levantar da privada, apenas pra virar, vomitar e voltar.

Certamente quem criou as manhãs, não as fez para se escrever, digo, apenas se não tiver dormido em momento algum da noite. varando a noite, o dia não eh começo do dia, é final da noite, onde há inspiração de sobra.

Na música erudita, antes de criarem metrônomos (aquele relógio pra indicar a velocidade da música), as partituras eram tocadas de acordo com um andamento característico. se queria tocar num ritmo bem lento, dizia tocar Adagio. Se buscava algo mais ligeiro: Allegro. Na cama eu gostava de Adagios, mas algumas insistiam em Allegros. Outras, até Prestos (extremamente rápido), quase um samba enredo.

Mas calma… tá bom de falar de mulheres um pouco. Que tal um caso diferente pra sair dessa mesmice? O começo da semana foi meio… er… digamos… Diferente.

Formava uma pasta branca e gosmenta enquanto eu metia e se misturavam com os pentelhos que tirou às pressas no banheiro. Parecia um queijo gorgonzola ou o creme de aspargos que minha vó fazia. Chegou a me dar fome. Preparei aquele sanduíche de buceta e preenchi com chipotle. É… ela estava em dias de guerra contra o epitélio descamado ventroso.
Havia ali naquele gorgonzola uma cultura de fungos bem caracterizada… um cheiro de alho torrado e erva (daquelas de chá mate). Cães farejadores de trufas ficariam alertas. É… Eu preciso disso tudo pra tentar esquecer a noite passada.

Me esporrou o palato quase que perguntando: “tem alguém aí?”, escorrendo entre as gengivas e gotejando no chão, parecia não ter fim. Nem dez cafés com muito açúcar e canela tiraram aquele gosto de adoçante da garganta. Que coisa desagradável, meu Deus. Bati 3 vezes na bancada da padaria… Era de inox. Foda-se. O rapaz pensou que eu tava pedindo sua atenção. “Nada não, nada não”, paguei e meti o pé.
Deveria ter provado do meu próprio primeiro. Que loucura que foi. Pelo menos por baixo saí intacto, mas não sei se suportaria à próxima bebedeira nessa boate louca.
7 da manhã de terça-feira. Preciso dormir ou trabalhar. Só um vai pagar minhas contas.
Só um vai me dar sanidade. “De noite arrumo uma baratinha pra equilibrar”. Fui pra casa.

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