Sofia: Um caso de quase amor – Conto

TRILHA SONORA: SPOTIFY

1 – SOFIA

Confessou que gostava de cantadas de obra e de ouvir: “que raba!”, ela gostava dessa palavra: RABA. Era meio esquisita, meio fora do padrão. Difícil de decifrar. Precisava de alguém como eu: sem freios, julgamentos. Dizia ser nosso lema: “Sem Julgamentos”. Quando se sentia desconfortável, falava de forma estranha, propositalmente errada e misturava, no meio das frases, termos em inglês. Quando escreve por mensagens, de forma, digamos, normal: sem firulas, ou misturas, sei que está se sentindo mais à vontade comigo. Sofia é misteriosa. Mesmo que eu a veja daqui à uma hora, não sei quando a verei. Ela tem esse suspense enraizado, mas eu gosto de vê-la fazendo as coisas à sua maneira, porque o que quero ver é apenas uma coisa: Ela. Sem moldes, filtros ou aparas. Parece que existo para enxergá-la crua, da forma que ela sempre quis ser vista: Sem julgamentos, como mandava nosso lema.

Ela provocava, dizendo que queria fazer algumas coisas comigo, não dizia o quê. Não insistia para que me contasse, mesmo me deixando louco. Era sua forma de me instigar, de me deixar vivo, pensando nela o dia inteiro. Se ela cedesse a tudo o que me deixava curioso, perderíamos essa experiência, que talvez não possa ter com ninguém mais — tanto ela como eu. Claro que no fundo eu queria saber, mas também queria deixar queimando minha imaginação.

Era muito desastrada, de um jeito cômico. Não prestava muita atenção por onde andava, apertavas teclas erradas no celular e dava ré no carro sem perceber. Um dia disse que levantou tanto a saia para ir ao banheiro que, quando acabou, pensou desesperada: “Fudeu, tô sem calças, como vou sair do banheiro pelada?”.

Escrevi muito pra Sofia, por mensagens, antes de conhecê-la pessoalmente, e sempre demonstrou um perfil de mente aberta, livre. Gostava de café, vinho, queijo e videogames. Uma versão reduzida, bonita e feminina de mim. O cabelo sempre mudava de formas e de cores, tinha uma bunda redonda e proporcional. Tudo era fluido, equilibrado. Tinha quase sempre 55kg e era mais baixa que eu. A primeira vez que a abracei, bati meu queixo no topo de sua testa. Dizia que lhe faltava peito. Eu particularmente não gosto de peitos botados. Aqui em São Paulo existe essa pressão, vindo dos homens, normalmente. “ela seria perfeita se botasse peito”, dizem. Pra mim, era perfeita: eu cabia no seu corpo. Mas ela não cabia em meu peito — ou melhor — ironicamente — eu não cabia no peito dela. Que já estava preenchido, bem povoado e territorizado. Era pequeno demais para nós dois. Meu papel era dar o que ela não tinha dentro dele. Preenchê-lo.

2 – DEMOLIÇÃO

 Não é a minha beleza que as atraem, mulheres em geral. Ficava encanado com isso e pensava “por que será que ela me deseja?” Pensei em mulheres que dominam algo; um instrumento, sua profissão, um público… É essa sensação que devo causar. Em algum aspecto da vida, devo dominar algo que ela admira. Quem sabe a facilidade de mergulhar profundamente nas palavras escritas e faladas ou na vida profissional, quem sabe? Ou até o domínio de alguma capacidade atlética. Já me apaixonei por uma menina apenas pelo fato de ela ser coordenada; sabia andar, correr, saltar. Dominava seu corpo. Creio que não seja tão fácil de compreender, mas acho que, pensando nisso tudo, vejo que posso sim, eu, ser alguém que a atrai.

Ela só queria se abrir, procurava por alguém que baixasse seus imensos muros construídos com tijolos de traumas e insucessos e fosse dar um “oi” para um vizinho que acabara de demolir os seus.

Falávamos abertamente do desejo de um pelo outro, sabendo que não nos tocaríamos, mesmo ébrios de vinho. No fundo ela me desejava e eu também, e esse desejo formavam infinitos cenários em nossas mentes, que naquele momento era saciante. O exercício que fazíamos era o mais complexo que já tinha executado. Tentar criar esse clima de quase beijo, quase sexo. Era uma coisa que alimentava muito nossas mentes. Deixava-nos pulsando forte, oxigenados até a ponta da última arteríola. A sensação de estar entre o não ter e o ter, era uma coisa que precisava ser prolongada ao máximo. Isso que nos dava prazer. Tenho certeza de que dominá-la também, mas com isso, vinha o risco do arrependimento, de ambos os lados; De mim ao invadi-la e dela, de trair a própria moral. Poucos entenderiam o poder e prazer do ‘quase’ prolongado e, por conversar livremente sobre isso, aliviávamos a tensão desse desejo, que poucos têm coragem de admitir ter, por puro medo do senso comum, críticas e até crises existenciais.

Contou que estava se sentindo mais bonita, seus amigos diziam também. “Você me acalma, você e pizza”, disse uma vez.

Resolveu aparecer aqui em casa uma noite. “Vou aí, pra gente tomar um vinho e vou dormir aí. Não dá pra voltar pra casa… e claro, não vai rolar nada. ok?”. “OK”, respondi.

As mulheres costumam ser bem diretas comigo e eu estava de boa com a situação. Ficavam à vontade pra falar qualquer coisa. Não julgava quase nada, ou nada… Pelo menos até agora, com ela, nada.

Foi a primeira vez que Sofia veio aqui em casa. Bebemos, conversamos, rimos e, lá pelas 2 da madrugada, falei, meio bêbado: “raspa minhas costas?”, ela sorriu com uma cara de fila de montanha russa e gritou “CLARO!!!”. Coisas esquisitas eram o lance dela. Fui pra dentro do box, tirei a camisa e dei a máquina pra ela. Passou de baixo pra cima. Quando chegou à nuca, parou, desligou a máquina e disse “Olha… você ficaria bem com a cabeça raspada”. Sem virar a cabeça, eu só disse “outro dia, outro dia”. Seu sonho era ter a cabeça raspada.

“Acabei”. Virei, peguei a máquina da mão dela e botei perto da janela, dentro do box. Abracei ela, que estava de costas pro chuveiro e com uma das mãos, abri o registro. Gritou um “ahhh” abafado contra meu peito de susto quando a água bateu na nuca e eu a segurava, impedindo de fugir de debaixo do chuveiro, enquanto a gente ria ensopados. Segundos depois, parou de tentar fugir, até porque, já não tinha mais nada seco em seu corpo. Ficamos lá abraçados por alguns minutos, olhando nos olhos do outro de vez em quando e se envergonhando.

“Vamos?”. “pra onde?”, perguntei olhando pras gotas que escorriam na sua testa, encaracolando os fios dos cabelos. Ela baixou a cabeça e propôs que fôssemos ver um filme, na cama, dormir… “Qualquer coisa”, disse levantando a cabeça, me olhando fixamente e completou “já tá muito difícil aqui”.

Desliguei o chuveiro, dei uma toalha pra ela e saí do box, molhado mesmo. Não ligo muito pra chão molhado.

Fomos pra cama. Normalmente durmo pelado, mas disse que usaria um short pelo menos — ela dizia que dormia só com alguma camiseta grande, sem calcinha, nem nada mais — Dei uma camisa branca bem surrada minha pra ela. Ela usava um short bem colado, preto. Os fios úmidos deixavam as costas da camiseta meio transparentes. Dava pra ver a pele dela, colada à camisa.

Até vesti uma cueca por baixo, pra evitar qualquer tentação (piada, né?). “vou dormir sem camisa, tá?”, disse praticamente constatando. “tá bom”. Evitei tocá-la essa noite. Observava sua silhueta, no quarto já quase todo escuro.

Rolamos na cama a noite toda. Com muito tesão, meio inquietos, fingimos dormir até as 6h da manhã, quando tocou o despertador. “tenho que ir”, ela disse levantando apressada. “nos vemos hoje a noite?”. “humm… hoje não dá. Meu boy vai me levar pra jantar”. “ok, sem problemas”. Virou pra mim e disse: “não desiste de mim, tá?”, com um riso debochado. Fiquei na cama, ela foi.

Peguei o celular e mandei uma mensagem pra Vanessa:

Oi…

oi gato — respondeu Vanessa, às 10h Td bem?

vem aqui hoje a noite

tá. Q hrs?

de noite. dorme aki

ok, 22h chego

bjo

bjo

3 – VANESSA

 Vanessa era a irmã mais velha de Sofia, 2 anos mais velha, tinha minha idade, 29. Não ia muito com a cara dela, ela era um saco. Mas a cara dela me lembrava a da Sofia, pelo menos quando sorria, o que era raro, já que me irritava. Sabia que eu gostava da Sofia, mas nem imaginava que a gente era íntimo, ou que a irmã já tinha vindo aqui em casa, muito menos dormir na mesma cama – mesmo que dormir fosse dormir mesmo.

Ah! Às vezes ela era legal, mas no fundo, se esforçava demais pra ser aceita, ser vista com uma visão moderna, progressista, que aceita as diferenças e as vontades dos outros – PURA BABAQUICE -; ela forçava a barra. Não era natural como Sofia. Estava, por mais que tivesse boas intenções, tentando ser algo que ela não era, que não acreditava. Vanessa não tinha face; só quando sorria, e me lembrava da Sofia.

Era aquele padrãozinho que emergiu no susto pra classe alta, meio sem luta – pelo menos da parte dela -, aquele padrão das fotos compartilhadas nos grupos de whatsapp: amigas juntas, bronzeadas, cabelos iguais, lancha no fundo e a legenda “o verdadeiro significado da palavra ‘tanto faz’.” Na boa… até concordo. Tanto faz, TANTO FAZ qualquer uma dessa foto. Quero que todas – IGUALMENTE – vão pra PUTA QUE PARIU!!! A não ser as que queiram me dar o rabo antes – como a Vanessa.

De noite, chegou, transamos — não… não comi seu rabo, mas transamos — e dormimos.

De manhã o despertador dela tocou, lá pra umas 10h com uma música da Legião. “Desliga essa merda, música chata do caralho!”, reclamei meio sonolento e com uma baba seca no canto do lábio.

Vanessa não entendia porque eu gostava, por exemplo, de Cazuza e não de Legião. “NEM DO RENATO?”, perguntava indignada. “Nossa… você não entende nada de música” completava nem querendo ouvir minha resposta – não que eu fosse dar satisfação. “É praticamente a mesma coisa. Amo os dois” – disse com cara de Poodle ouvindo fogos de artifício, indignada comigo.

Fui embora, da minha própria casa — SÉRIO —, fui embora, deixei ela lá. Era quarta-feira. E nas quartas-feiras eu sabia que a Sofia não podia. Minhas melhores transas foram as quartas — se bem que provavelmente não transaria com Sofia, quarta-feira ou não.

Sofia era “todo amor que houver nessa vida”, Vanessa “tempo perdido”.

Dei umas voltas pelo bairro, caminhei no parque e voltei. Ela não tava mais lá. Olhei o celular: “3 novas mensagens de Vanessa P.”

oi mala
vem aqui em casa
pegar um sol na piscina

Era quarta-feira, né… Eu fui, cheguei lá umas 14h. Tava sem luz, subi os 12 andares até a cobertura, num ritmo tranquilo, de escada. Cheguei e fiquei perto da piscina. Muito sol, muito claro. Tinham me roubado os óculos escuros em algum dia da semana passada. Fui pra sala, ficar um pouco, peguei um caderno, um lápis e comecei a rabiscar qualquer coisa sem muito sentido no papel.

vem pra cá — mensagem no celular, da Vanessa

Porra! Ela se incomodava porque eu não gostava de piscina, calor, praia, verão e essas merdas. Que caralhos ela espera de um cara “diferente” como ela dizia —, hein? Esperava gostos e atitudes iguais às dos outros?

no caderno escrevi:

“OUTROS”

Pertencemos ao mesmo grupo por sermos diferentes
mesmo que uns dos outros e de nós mesmos também sejamos
somos de um grupo diferente que de nada temos de igual um do outro
a não ser o estranhamento
de outros
diferentes porque aceitamos
dos outros
“nossos” outros a diferença, os enganos
Afinal, torçamos para não sermos internados
enquanto almoçamos
liberdade
ou exitamos
na vida
ou pensamos
demais
E mesmo que nós,
diferentes de todos e de seus próprios, fujamos,
convenhamos:
sozinhos estamos
somos loucos
convenhamos.

Embaixo do caderno, a capa do jornal: “sensação térmica de 60 Graus”. Acho uma palhaçada isso. — fechei o caderno — encostei no sofá pensando “quero ir embora, mas não de escada”. Olha, cansei de ir à sauna da casa da Vanessa, fritando ‘só’ à 50 graus e não aguentava nem 10 minutos direito, e tô aqui nessa sala há quase uma hora, sentado a “60 graus” e a única coisa que tá me incomodando é a preguiça de ir embora. Foi foda subir os 12 andares.

Estava meio puta, por estar na sala quente, suando parado e escrevendo em vez de com ela na piscina.

Um grande F O D A – S E  espaçado e em caixa alta: É essa parada aí que eu sou. Esse foda-se. Eu deveria ter vontade de pular na piscina? — Eu deveria ter vontade mesmo era de comer um cu, porque não o faço há séculos. Eu nunca comi o cu dela — e nunca vou —, porque pra comer cu é preciso ter paciência… e isso é a última coisa que tenho quando se trata de Vanessa.

Lá pelas 16h a luz voltou — fui embora, comi algo em casa e dormi cedo.

4 – Trinidad e Tobago

Suava pela nuca tentando dormir, mesmo com o ventilador na cara, me incomodava o calor e não podia mexer muito, me doía o joelho, que estava machucado. Por um tempo achamos que nunca vamos conseguir dormir, até que uma hora, eventualmente, apagamos. Acordei às 14h, estava de licença médica, tinha me esquecido de desligar o despertador, que tocou às 5h, mas nem ouvi. Eu pensava nela. Nessa noite não lembro de ter sonhado, mas quando acordei, só pensava nela. Quando aparece alguém assim, como ela, qualquer coisa vira poesia: uma fruta colhida, alguém caminhando na areia da praia, passarelas do subúrbio, uma música e até geometria.

Só paro quando adormeço. Mas até os sonhos que tenho viram inspiração. Acordo de madrugada, às vezes, e escrevo. No dia seguinte não me lembro de tê-lo feito. Apenas leio com dificuldade uns versos tortos que não obedecem a margens ou linhas. Transcrevo-os e envio pra ela. Uma vez perguntou: “será que você é a reencarnação de algum poeta marginal?”. Não soube dizer, sei apenas que ela me faz entrar num transe celestial. Era assim que Sofia me deixava.

Preciso tomar cuidado para que isso não vire um vício ou fetiche: essa sensação de ‘quase’, procurando mulheres comprometidas. Ela tinha um jeito diferente, puro, falava o que vinha a mente, sem pensar muito. Confundia a bandeira do Pará. Dizia: “aquele país da África”. Imagino que ela estava falando do caribenho Trinidad e Tobago.

Apenas admirava e ficava olhando ela falar daquele seu jeito desapegado, às vezes, desbocado. Falava sozinha por horas se deixasse, até perceber que eu tinha adormecido, com um sorriso congelado por ter ouvido sua voz por horas.

Estar assim muda até nosso paladar. Ficamos mais corajosos, desbravadores; queremos conhecer novos sabores, lugares, sensações, fazer novas conexões. Um período de novas experiências, comemos coisas de que não gostamos, por ter um sabor diferente, pois foi alguém especial que preparou, ou disse que era uma das suas coisas favoritas, das coisas de comer.

Gostava, mesmo, era de ser elogiada. Ficava sem jeito, mas tinha aprendido a agradecer. Alguém devia ficar incomodado com sua falta de jeito quando falavam bem dela.

Encontrei Sofia numa quarta-feira à tarde para tomar um café, coisa rápida. Sabia que tinham me roubado os óculos escuros. Tirou da bolsa uma capa, com óculos escuros dentro. “Pra você. Lentes polarizadas”, disse. Não fazia ideia do que era uma lente polarizada. Pela minha cara ela percebeu, e disse: “com essas lentes, verá o mesmo mundo que vê todo dia de uma forma diferente, como se estivesse em um sonho, ou numa trip de doce.”

No dia seguinte, Sofia estava na minha cama, umas 22h30, escrevendo na mesa, do lado da cama, eu achava que ela já tinha adormecido, até que me chamou:

Fabricio

Fala amor

Você ainda ta comendo minha irmã? – perguntou, olhando pro teto

Tô sim…

Por que? – olhou pra mim com uma cara meio confusa – você não gosta dela.

Ela me lembra de você, às vezes, quando sorri.

Missão difícil – disse ela, rindo

É…

Já escreveu algo pra ela?

Aham… escrevi algo sobre você também, ontem. Vou te mostrar.


“Vanessa”


Eu gosto do tranquilo
Músicas lentas, conversas
A certa distância. Dormir junto,
E eu não durmo muito
Talvez por dormir sozinho
Gosto de ler – em voz alta
Tenho vergonha, mas leio
Talvez por ler sozinho
Cozinhar, testar novas receitas sem medo
Talvez por comer sozinho
Mesmo num bar lotado, sentado
Bebo sozinho
Mesmo com você junto a mim
Comendo, bebendo, lendo, transando
Talvez prefira ficar
Sozinho.

“Sofia”


Deu-me óculos de lentes polarizadas
Eu via do reflexo do céu, cores fracionadas
nos para-brisas dos carros, nos vidros e poças d’água
Ela queria me fazer lembrar, ao sair de casa,
dela. Toda vez que os óculos na face estacionava
e eu saía logo cedo
à tarde retornava, mas
bem tarde anoitecia. às vezes, só para dormir
eu os descansava.

Amei o meu — disse Sofia.

Que bom. E o dela?

É… É real… parece ser muito mais negativo do que positivo.

Com certeza, mas fico com aquela expectativa, esperando que ela sorrisse, mesmo que seja tão difícil. Você sabe que é você que desejo… e não corro o risco de ela se apaixonar por mim, muito menos eu por ela.

É… — já bocejando, Sofia adormece.

Apaguei a luz e fui dormir – dessa vez sem problemas – dei um beijo na nuca dela e dormi abraçado, por trás dela, encaixado em seu corpo. Mesmo no escuro eu a senti sorrindo com o canto da boca.

5 – Warm

O joelho, continuava doendo. Ah, meu amigo, mas eu tinha uma forte resistência à dor. Durante a infância era atendido por uma dentista venezuelana. Certamente não tinha registro profissional. Atendia em casa, sem letreiros ou propagandas na porta. Extraiu diversos dentes sem anestesia, fez canal… Bem, isso me fez uma espécie de Deadpool: feio, obsceno e que não sentia mais dor. Sofia curtia isso. Eu era a imagem de força e ao mesmo tempo tesão. Daquelas bem sujas, saindo de dentro das histórias de Nelson Rodrigues. Imaginava ela correndo nua em volta da piscina enquanto eu gritava “vou te comer”, recriando a cena da Regina Casé em OS SETE GATINHOS.

Pelo celular Sofia me mandou uma foto bebendo um mojito e o canudo parecia uma banza. Era algum canudo de inox, coisa rica, chique. Não era bem a cara dela. Talvez nem tivesse percebido que tipo de canudo tinha entre as pontas do indicador e polegar enquanto posava pra foto pra me enviar. Sofia sempre posava muito para as fotos que tirava. Sabia do impacto que elas causavam.

Deitei na piscina da Vanessa com os braços nas bordas, como se fosse um saquinho de chá. A água estava quente, bem quente. No fundo, distante tocava na caixa de som, dentro de casa,  SLIP de Elliot Moss. O tempo parecia passar mais devagar. O vento que batia forte, parou. E as nuvens estacionaram. Bem difícil entender o tempo, estacionado, flutuando junto às nuvens.

Tínhamos a personalidade tão diferente. Era estranho ter, apesar disso, um gosto musical tão semelhante.  Talvez o único elo que nos lincava fosse a timidez. Quando compartilhávamos uma música, queríamos, no fundo, que o outro se sentisse da mesma forma. Ou que o vocalista falasse o que nunca falaríamos. Aquilo que, por dentro, realmente queríamos dizer.

Começou a tocar WARM de SG Lewis. Um trecho dizia “i’m a little shy, but I know you know/ I haven’t done this too much, cause I didn’t not know”. Aquecido como na música, estava deitado esperando o tempo passar.

Tímidos: Usamos a extroversão para esconder isso do mundo. Quando estamos sozinhos — nós dois —,  conseguimos enxergar o medo de cada um (e se expressar, e olhar um no olho do outro…).

 

6 – Insônia 

Foi Thomas Jefferson que disse: “os homens tímidos preferem e calmaria do despotismo ao mar tempestuoso da liberdade“. Talvez nunca tenha conhecido um mar como o que nadávamos e a liberdade que sentíamos quando, com o outro, falávamos.

De certa forma ela já estava bem à vontade comigo e me mandou uma foto. Disse que queria me mostrar seu abdome, que estava começando a aparecer. A foto estava cortada, logo abaixo da cintura, mas mostrando que ela estava de calcinha: preta e atrás dela, seu short dobrado em cima da cama. Pra me provocar, tirou o short para tirar a foto.

Por um minuto achou que tinha ido longe demais. Reagi muito euforicamente, eu estava morrendo de tesão e não cansava ao falar do corpo dela: “perfeito”. Preocupou-se, achando que tivesse me tentado demais sem poder me dar nada (pra mim aquilo estava longe de ser “nada”). Dela, era aquilo que eu esperava. O que ela estivesse a fim de me dar.

Não ficarei com ela, provavelmente, e não sofrerei com isso agora, apenas aproveitarei o que tenho, o que ela me dá e o que vier de inesperado, como essa foto, será muito bem aceito.

Nunca perguntei sobre o seu trabalho, sobre o que fazia, como era… Aqui em São Paulo, essa, geralmente, é a primeira pergunta que te fazem em rodas de conversa. Parece que seu nome, vontades e gostos – personalidade – são coisas secundárias. Ela nunca entrou nesse assunto, ou se definiu pela sua profissão. Talvez também por isso, ela me achasse tão diferente e se sentia tão à vontade. Até porque, nessa lógica eu seria muitas coisas, que talvez fosse encarado como ser um nada.

Prefiro deixar claro que eu sou EU, com atitudes, não discursos. Não sou uma profissão e se me perguntam o que faço, retruco: “Da vida?”. “Isso, isso…”, respondem ansiosos. Apenas sorrio, com apenas um lado da boca simpaticamente, bem preguiçoso, olhando no olho por alguns segundos e não falo mais nada. Desvio o olhar e finjo fazer outra coisa. Se insistirem de maneira desconfortável, digo que gosto de esportes, arte e filmes… Até aí acho que já percebem meu desinteresse pelo assunto.

Veja bem, amo meu trabalho, mas não posso me obrigar a sê-lo. Cada dia, cada ano eu sou uma coisa diferente, independentemente da função que eu exerço. A diferença era essa? Eu amar meu trabalho sem sê-lo? Talvez apenas tenhamos uma relação aberta desobcecada.

Na minha parede de casa, atrás de onde fica o monitor do computador uma citação numa moldura preta, bem simples:

Você tem que ter horas imperfeitas para ter as perfeitas. Você tem que matar dez horas para que duas vivam. O que você tem que cuidar é para não matar todas as horas, todos os anos.” (Charles Bukowski)

Assuntos profissionais deveriam ser um trunfo, usado apenas em casos de silêncios absoluto causados por esgotamento de assunto, mas em São Paulo – Porra! -, ele é assunto principal e inicial. “o que você faz?” vem primeiro que “qual seu nome?” ou  “de onde você é?”. Eu sou um conjunto de vivências e momentos, uma infância brincando pelas ruas do subúrbio, eu sou o que gosto e dificilmente serei o que me sustenta. Novamente, não sou um trabalho ou profissão. Seria covardia, uma maldade me definir e me prender à uma coisa só. Amanhã posso ser quem eu quiser se é meu ganha pão que me define. Sou livre, esse é meu “eu” de verdade. Imagina ser demitido, ter o emprego extinto, que crise! Estaria fudido espalhado em divãs fazendo terapia a vida inteira.

Cada dia que passa, cada hora, já que tudo é tão rápido, ela parece mais e mais transparente. Era tão difícil no início quando a vi pelas primeiras vezes, engraçado agora ser tão natural identificá-la e defini-la em uma palavra. Não que ela seja uma coisa só, sempre, mas, cada momento ou conversa faz-me defini-la como algo, algo que vejo claramente. Às vezes um forte combustível: uma bomba atômica… toda vez que chego perto dela, sinto a fissão dos núcleos dos seus átomos, o vento e o clarão explodindo em direção ao meu corpo. Sinto que também seu combustível e, em alguns momentos, que somos versão de uma coisa só. Momentos em que ela se espanta, achando que leio sua mente e diz que precisa ter cuidado – olhando pros lados -, fica com medo de pensar o que está pensando e eu estar ouvindo. Mas se ela chegar bem perto talvez eu consiga, de fato, ouvi-la. Por outro lado, não me desperta mais curiosidade.

Um dia em casa, na mesa onde normalmente escrevo, a cada gaveta que abria, voavam folhas em branco e manuscritos. Numa gaveta reservada aos meus poemas favoritos; Vinícius, Piva, Bukowski, Ezra e umas citações de Breton e Hemingway. Eu sempre mostrava pra ela, um ou outro.

Amei. certa vez ela disse fico pensando… Quando vai me mandar algum que eu odeie, ou pelo menos me sinta indiferente?

Posso tentar; o que te incomoda na vida?

Não! Não quero forçar nada. Continue. Um dia acontecerá. Não quero dizer o que me incomoda, quero que descubra cada pedaço meu. Até o que me incomoda, ou melhor, principalmente o que me tira do sério.

Sorri, e na minha mente aceitei o desafio. Nessa noite fiquei em frente à máquina de escrever por um minuto inteiro pensando em como continuar um poema. Era hora de parar. Claramente seria forçar demais a barra. Um minuto é uma eternidade para meus textos espontâneos.

Cortei as unhas, tomei um banho. Talvez ela aparecesse. “aprenda…” – ela dizia – “eu não sou certeza: essa é a única certeza que pode ter de mim”. Até com clichês ela era uma delícia.

Eu estava aprendendo a ser mais espontâneo, porém, sempre preparado pra qualquer coisa. Meu cabelo já tinha perdido a validade faz tempo, caótico, mas as mãos estavam prontas pra qualquer tipo de toque e o perfume do banho, que ela dizia se sentir tão atraída, estava no ponto. Na adega, oito vinhos, inclusive seu favorito, Tempranillo – de qualquer casa – e queijos, que nunca faltam em casa.

Às 20h30 ela disse que não conseguiria vir. Não daria tempo de arrumar as coisas. Fui dormir cedo, antes da meia-noite e sonhei com ela. Estávamos numa sala de uma casa desconhecida, deitados num tapete grosso. Eu fazia um carinho leve no interior da coxa dela perto do joelho. Ela vestia a saia que usou da última vez que nos vimos. Dei um beijo na coxa e ela foi subindo a saia, com o dedo médio, puxando, deslizando sobre a coxa, mostrando a calcinha preta da foto que tinha me enviado. Que tinha me feito gozar três vezes. E com três dedos, a puxou para o lado e me convidou com os olhos pra chupá-la. Caí de boca, chupei por cinco segundos e acordei; Me toquei pensando como seria ela gozando enquanto eu chupava. Adormeci, bem de leve, me revirava muito e logo já estava excitado de novo, no meio da madrugada, lá pelas 3, não resisti mais, desisti de voltar a dormir e enviei uma mensagem pra ela enquanto batia uma:

 

Quero te chupar

Vou te chupar

A língua fazendo pequenos círculos em volta do seu clitóris, com a ponta da língua, no doce, sentindo o doce de sua buceta, que não para de se lubrificar, me encharcando o queixo e grudando, uns aos outros, os pelos da minha barba. Descendo pro salgado do mar que quero mergulhar de cabeça, passo, e vou até seu cu, lambendo até perder a vergonha de gemer.

Visualizou a mensagem umas 9h da manhã, respondeu às 16h:

Hmmm… criativo você

7 – Beijo

Precisava mudar alguma coisa. Senti que era o momento de radicalizar, me libertar… Enviei uma mensagem pra Sofia: “vou raspar a cabeça”. Respondeu apenas “raspe”. Ela incentivava a mudança. Minha cabeça já estava me pregando peças, querendo dela, Sofia, mais do que tínhamos. Estava começando a querê-la todos os dias. todo o dia.  Mudei o visual, pra ver se mudava também a forma de pensar, radicalmente. Raspei e mandei a foto pra ela.

AMEI

O dia inteiro fez muito calor… Sentei, depois do banho gelado, sem secar cabeça nua, que tinha torrado, andando pela rua. Escrevi sobre o Sol, que há tempos não batia ali.


“SOL”

Tudo começa na forma em que a gente vê as coisas;
Da vida mesmo. Por que limpar meu espelho?
Será tão importante ver todos os detalhes do meu corpo?
Se minha parede da sala está pintada só até a metade, por que deveria me incomodar?
Por que me incomodar com o incômodo dos outros ao vê-la?

Às vezes, aos outros incomoda tanto, que querem mudá-la.
Vão implicar com sua falta de incômodo.
Vão ameaçar pintá-la, pegarão o pincel e o farão, se não fizer nada

No dia em que dissermos “NÃO! Gosto dela assim”,
teremos dado um passo em direção à liberdade
e nos tornaremos cada dia mais livres
e sozinhos;
No fundo, eles não querem ser livres,
apenas pertencer a algo.
Algo que nós estamos tentando nos desprender.

Por muitos anos ficou essa cabeça sem ver o sol
Eu me senti vivo
quando a máquina passou;
Acelerou o coração
por mais que a cabeça tenha desistido
dos fios de cabelo e de aqui te imaginar
ainda quero muito te ver e te sentir
aqui pra aproveitar
as coisas da vida.
vinhos, livros e quartas-feiras
não seriam iguais sem ti.

O que da vida seria sem a mudança?
Do que, todo dia, vemos e fazemos?

A mudança inspira!
Quando vais mudar tua rotina
e a cama em que dorme todos os dias?
E ver filmes que nunca verias,
fazer coisas que ninguém imaginaria.

Fazer tudo que no fundo queres
no fundo, gostarias
“se um dia tiveres sozinha, Sofia, se um dia…
procura-me. De prontidão aceitaria.
Te quero, sorria!”.
Pensava eu falar pra ela durante todo o dia
todos os dias
e ela sabia.

Nessa noite Sofia apareceu. Logo que chegou, vi que estava tomada por um olhar triste. Perguntei se estava tudo bem. Apenas entrou e me abraçou no corredor de casa. Levantou a cabeça e me beijou. Baixou a cabeça e como mandasse me calar, apoiou dois dedos sobre meus lábios.


— desculpa.
— tudo bem. Eu gostei.
— eu também. Mas não posso.
— sem problemas. Esquece que aconteceu —
Impossível.
— quer que eu vá?
— não, fica. Dorme.

 Foi uma das noites mais difíceis. Mais uma vez, não dormimos. Via seus olhos dela o teto. Passei a noite toda olhando. Mal piscou. Isso a afetou. Talvez fosse nossa última noite. Ou, quem sabe, a primeira. Remoía na minha mente e era impossível dormir, impossível deixar pra lá.

Estava bem no dia a dia, feliz, sociável, disposto. Apaixonado pela ideia de estar apaixonado por ela. Não estava. Mas isso estava me deixando como se estivesse. Ou talvez eu estivesse me enganando. Talvez eu esteja apaixonado. Com certeza a única coisa que está clara é estar completamente confuso.

8 – Final

  “Contato de Emergência?”, perguntou a recepcionista do hospital. Percebi que estava sozinho. “nenhum”, respondi. Fingiu não se importar e não perguntou do meu acompanhante pra cirurgia, como tinha feito com os outros pacientes que atendeu antes de mim.

Na noite anterior fez bastante calor, decidi entrar no banho, botei a temperatura no máximo. A água gelada me tiraria o resto de pouco sono que estava. Fui passando pelas quatro temperaturas. Quando meu corpo estava suplicando, pus no frio. Fiquei uns 10 minutos, até passar o calor, saí e deitei.

Uma dor de cabeça forte. Provavelmente pelo excesso de anti-inflamatórios que já me estavam fudendo o fígado. Passei a mão do lado direito do abdome, abaixo do peito e podia sentir como se fossem pedras grandes e rígidas. Apertava e segurava por alguns minutos tentando desfazer aquela tensão – em vão. Na cozinha, enchi uma colher de óleo de fígado de bacalhau. Sempre me dava uma mini ânsia de vômito, mas amenizava no dia seguinte o mal estar. Fui dormir, rolei uns 20 minutos talvez, e só lembro de acordar com o despertador gritando às 6h da manhã. Fui para o hospital.

Entrei sozinho na sala de cirurgia e, sozinho, saí andando do jeito que dava. Eu sentia fortes dores e câimbras por trás das coxas, que me deixaram imóvel por uns 10 minutos. Fingindo descansar encostado na parede, no meio da rua, enquanto as dores não passavam. Fui de ônibus e a cada buraco que ele passava, mesmo sentado, sentia uma dor, como agulhadas nos joelhos. Sabia que precisava daquilo para realmente tirar uma lição daquela situação. A punição física é cruel, mas sempre funcionou comigo.

Depois de três semanas de fisioterapia, voltei a trabalhar, estava bem. No elevador, o tranco que ele dava quando chegava a qualquer andar, não incomodava mais o joelho. Estava recuperado das dores… Físicas.

Eu podia esperar por muito tempo, sem tocá-la novamente, apenas em pensamento. Mas quando saí do hospital, com meu ligamento reconstruído, reconstruí também a mim. “Hora de seguir em frente”. Uma vida nova com um novo ligamento. Podia, sem medo, mudar de direção livre e bruscamente.

Tivemos uma paixão incomum que já dura algumas semanas.  Precisei dela pra me sustentar, como ela, de mim, pra crescer. O pedaço que eu tinha não mais me preenchia. Apenas me fazia querê-la toda pra mim. Estávamos livres, mesmo nunca havendo, um dia sequer se prendido a algo real, juntos. Apenas aquele beijo. O beijo foi nosso único contato real. O primeiro e último contato.

No celular:

Fá… precisamos conversar.

Caminhei normal. Dos 4000 passos que meu celular disse ter dado, 2000 foram com a perna direita. 2000 com a perna operada, sem mancar. Conhecê-la fez-me conhecer a mim, me abrir e me deixar levar. Melhorei, melhor do que com qualquer droga do mercado. Continuarei a caminhar, sem mancar. Sozinho e fortalecido. Até o efeito passar e precisar de uma droga mais forte.

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