Trufado – Conto

Me dou bem com crianças, talvez por não encher o saco delas pedindo abraços e beijos; parece que a carência das pessoas amplifica na presença delas. Fico na minha e uma hora elas vêm falar comigo. Assim nascem as boas amizades: sem pressão.

Caio era engraçado, tinha 3 anos. Eu tava na minha, sentado no sofá, ele enfiou um biscoito na minha boca e disse “Come, tio. Bicoito”. Conversamos a tarde inteira depois disso. Na hora que sua mãe o chamou pra tomar banho, me olhou com olhos preocupados e disse “tio… não come tudo não”. Eu ri e devolvi um “confie em mim” traduzido no olhar.

Porra, eu tava com fome, mas esperei ele voltar, não podia perder a confiança dele. Sua mãe teve que abrir uns 3 pacotes depois desse. Dois ogros que tinham acabado de se conhecer, um de 3 outro de 30.

AMIGO
(adjetivo)   – Aquele que te ajuda nas mudanças, seja de casa, opinião ou vida

Ninguém vai aceitar suas mudanças ou ajuda-lo com elas, apenas o amigo – creio ter atualizado essa definição em meu dicionário.

Quando me mudei – de casa – junto, mudei minha vida e a visão do que era felicidade e algumas das minhas necessidades. Sobraram alguns poucos que, no fundo, ficaram felizes com a mudança – a da vida.

Não que o Caio pudesse me ajudar a mudar de casa, mas sua mãe era uma grande amiga. Na verdade, quem estava de mudança era ela, de casa e, sobre as mudanças de vida, desde que a conheci, está nesse processo. Ora triste, ora eufórica, dos meses que a conheço, que quase formam um ano, não a vi num meio termo, tipo, “equilibrada”, num bom sentido, claro.

Meu primeiro contato com ela foi brutal, acabei me apaixonando.  Ela tinha um beijo fermentado. Um gosto de vinho misturado com trufas. Desde então eu só como e bebo coisas fermentadas. Pão, queijos, vinho, chocolate, cerveja… tentando reproduzir o olfato retronasal que senti na primeira vez que a beijei. Até hoje, nunca consegui replicar essa experiência, seja com comidas, bebidas ou com pessoas. Ela era única, mesmo que no gosto da boca. Meu telefone tocava sempre que ela bebia, lembrava-se de mim todas as vezes – não diria “bêbada”, por educação, pois toda vez que bebia ficava tropeçante.

Sempre que eu voltava de sua casa, voltava também tropeçante, entrando nos buracos das ruas, testando meu equilíbrio físico e emocional. Era meia hora, numa caminhada leve, gostava de pensar na vida enquanto ia pra casa, às 2 da manhã de um dia qualquer do meio da semana.

Em sua casa, nem sempre a beijava, nem sempre a gente se esbarrava no corredor do banheiro ou cozinha, nem sempre saía da sua poltrona favorita, onde fumava e bebia, perto da brisa fria da janela. Fumava por horas o mesmo cigarro, quase sempre apagado. Parecia lembrar algum fato bizarro que tinha presenciado em alguma viagem toda vez que ia levar o isqueiro à boca. Ela viajava bastante, quando voltava, ligava. Largava tudo e ia pra lá. Certa vez, no meio da depilação, em casa mesmo, ela ligou. Deixei pela metade e fui. Avisei “tô com a perna meio pelada, meio peluda, espero que não ligue”. Ela riu e disse “Vem logo”.

Era a única pessoa que conseguia me fazer atender o telefone, geralmente deixo tocar até desistirem e mandarem uma mensagem.

“você é esquisito”, dizia cutucando com o cotovelo, sentada do meu lado. “é por isso que me ama”, ela concordava: “exato”.

E eu pensava “quando diabos  vou ter tempo de depilar essa meio perna peluda, meio pelada?”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s