Grunge (Fcavadas e Lucio) – Conto

De noite, um amigo que está morando no Texas chega aqui em casa. Ficará 2 dias. O Maza. Eu chamava ele assim. Sua mãe teve a infeliz ideia de nomeá-lo em homenagem ao cineasta Mazaroppi, mas só ela o chamava assim.

Ele mandou uma mensagem

-Tô levando uma mochila, uma cueca e uma vontade louca de comer travestis. Tô há 3 dias com a mesma camisa pra relembrar nossos bons tempos de grunge.

E com a certeza de que crossdresser também é mulher, embarcou no pássaro de aço que o levaria numa viagem louca de volta aos seus 16 anos.

Como um jogador a caminho da copa, ele sonhava em trazer pra casa um grande troféu. O símbolo de sucesso da sua jornada: uma namorada, linda e sincera que outrora atendia pelo nome Durval Vasconcelos, hoje renovada – só atende por Lucia, sem acento.

Na realidade, o verdadeiro propósito dessa viagem era o estado clínico de Maza. Fora diagnosticado com Síndrome da Realidade – enfermidade comum a homens na faixa dos 27 anos -, o médico receitou doses cavalares de juventude com a promessa de que Maza livrar-se-ia de todos seus sintomas, que incluíam

  1. fome de sushi
  2. uso to termo TOP e suas variações
  3. vontade de fazer EUROTRIP
  4. acúmulo de gordura na região abdominal
  5. queda de cabelo
  6. não conseguir usar cuecas 2 dias seguidos
  7. compartilhar Quebrando o TABU – o mais grave dos sintomas

O cara tava confuso e precisava se curar.

A viagem já começou conturbada, . que era consequência do estado mental instável. a realidade tentou mais uma vez abraça-lo. e com uma escala no rio, ficou uma noite no hotel. Leu galeão, e falou Dumont pro taxista. E quando estava prestes a embarcar na sua viagem à adolescência, escutou incrédulo o timbre pesado do segurança dizer “seu voo é no galeão, rapaz” com olhar de pena e um riso sarcástico, quando virei as costas

Maza precisava tomar rapidamente sua dose de juventude para não ser sugado novamente para o epicentro da realidade e voltar a ter sintomas pesados. e já pensava como seria TOPPER chegar lá. sacou da mochila sua blusa flanelada vermelha, como um herói vestindo sua capa de grunge. botou o fone de ouvido, que só funcionava de um lado, ligou o modo MONO, no mais alto volume FELL ON BLACK DAYS do SOUNDGARDEN e sentia quase que transcendentalmente o cheiro de Derby e prostitutas dos domingos de rock no garage. Ele tinha 45 minutos para chegar ao Galeão e pegar o voo das 19h30.

E como se tivesse sido carregado pelos anjos do rock, passou voando pelo túnel Marcelo Alencar em direção a sua juventude perdida. Chegou faltando 5 minutos pro final do embarque e voou pelos agentes da policia federal, que o pararam de forma, digamos, desconfiada, procurando em seus bolsos alguma evidencia de veganismo – ehr…  digamos assim. Não acharam nada. foi correndo para o portão 15, pegou o ônibus até o avião e sentou na poltrona 16B. Não tinha mais espaço para bagagens na parte de cima e teve que botar sua mochila jeans sob o acento da frente. Ele estava voltando a sentir aquele cheirinho de grunge. Aquele aroma de brenfa amassada.

Chegou com uma forte chuva, que tinha enchido a grande são paulo. Ele precisava chegar no Brooklin, botou a mão no bolso e só tinha 5 reais amassados e embalados por meio trident de canela, que usava para dichavar seus apetrechos grunges. pediu um UBER, fugindo dos taxis papa defuntos, sabe? aqueles que cobram 50 reais na corrida de 8.

Finalmente ele chegou, meio molhado. o corredor até o saguão do prédio era descoberto. dei uma blusa nova pra ele:

– caralho viado, demorou pra cacete – falei

– foda foda.. bora. Augusta? travestis?

– bora. deixa eu pegar umas camisinhas aqui da boa. SKYN®

– mano… eu não uso camisinha.

– beleza – confirmei – bora então!

Fomos pra uma boate na Frei, “A Lôca”, lá encontramos uma velha amiga, Ágata, uma felina, lá pelos seus 49 anos,  uma ‘CDzinha’ – pra quem ta por fora, CD = crossdresser, ou seja, amor sincero.

Maza foi pro quarto, de um motel, ali pela rua frei caneca, do lado da igreja.

Deitou Ágata na cama, acariciou seu rosto e beijou carinhosamente sua bochecha. as bochechas da face, não as do cu. era uma relação extremamente afetiva, quase fraternal se não fosse o desejo de descobrir o que ela tanto encobria. o tesão superou a ternura e como quem tem fome descasca uma banana, ele arrancou com certa agressividade suas roupas e com a precisão técnica de um cirurgião, mirou e foi de encontro com o anel de couro, sendo interrompido por um grito

– PARA! SOU MENINA… e menina direita. cade a camisinha?

– Boa noite, eu gostaria de informar que meu avô é índio, MEU AVÔ É Í N D I O, caboclo. E camisinha é uma ofensa. O látex é uma ofensa à humanidade. Camisinha NÃO SE USA! É pele na pele; é pelo no pelo. Se eu usar camisinha meu pau apodrece E CAI. É ÍNDIO NESSA PORRA! É SANGUE NEGRO, CARALHO!!! ( ouça – https://soundcloud.com/filipe-cavadas/indio-latex)

Ágata saiu correndo do quarto, gritando “você é LOUCO, eu não acredito” e maza respondeu.

– Eu que não acredito que alguém, em sã consciência, contrate o Rogério Ceni como técnico.

 

 

 

 

 

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