16/10/16 – o dia que descobri que amava são paulo – Crônica

Eu odiava isso aqui. Mas sabia que ficaria um tempinho nessa cidade – Até comprei uma caneca que dizia “EU ♥ SP” – Uso todos os dias esse objeto que gerou divergentes emoções; Ele é o lembrete da minha caminhada. Sempre me perguntavam “como pode sair de lá pra vir pra cá?”.

Quando cheguei era frio. Era muito frio. A cidade, as pessoas eram frias. Como ouvi Criolo naquele primeiro ano.

Eu estava cansado, vivia cansado. Um amigo sempre, durante o trabalho, emanava um mantra “nunca cansado, nunca cansado” – dizia em voz alta. Em inglês até “nunca cansado, never tired”, não era a melhor pronúncia, mas era engraçado como ele vencia o cansaço com apenas palavras. Configurou sua mente para tal.

Os casais forçados. Os casamentos desesperados na pós meia-idade de um e a busca de estabilidade financeira do outro. O encaixe que parece um eletroímã. E os filhos – A vontade de tê-los – Sempre fui meio impulsivo. Acho que encontrei uma forma de lidar com essas urgências passageiras. É como num dia de trabalho braçal intenso. Conter a vontade de comer uma pizza inteira – Não sei – talvez –  só é preciso esperar um pouco, ou comer uma outra coisa que a vontade passa. Preencher-se de outras coisas. Vai que passa a vontade de ter um deles. Parece às vezes que nosso relógio biológico também desperta. E esses casais, não são muito diferentes do que sinto em dias nublados. Assim são formadas algumas das famílias por aqui. É claro que vai dar merda. Um dia vai chover forte. Com alto potencial destrutivo.

O criolo não tava errado. Mas o que aprendi sobre essa cidade é que existe um amor. Meio perdido, meio enfrestado entre tacos de um apartamento idoso. Depois de uns anos morando aqui, adquire-se certa coragem. A distância entre as pessoas as faz mais caras-de-pau. Desesperados – em alguns casos – para se conectar. Abordaram-me na paulista, uma menina e dois amigos. “tá de parabéns.” – disse ela. “que homão da porra” – comentou um deles pra ela. Cara de pau pra me fazer mandar uma carta por baixo da porta da vizinha. Todos esses contatos não caem no esquecimento. Todos esses difíceis contatos são valorizados. Essa é a forma de se conectar por aqui, por quem não nos apresentam.

Às vezes sinto falta de uma porrada. Não uma porrada física. Na alma! O universo costuma responder bem nessas horas. Nessas horas que criamos os calos mais fudidos.

Eu sou a pornochanchada dessa cidade. Romântico, cômico e com certo apreço pela putaria. Costumo frequentar um teatro-bar. Parece um cabaré rodeado de móveis antigos e vitrolas gritantes. O Cemitério de Automóveis, na Frei Caneca.

Três bolas de merda flutuavam na privada. Nenhuma descarga era capaz de afogá-las.

Entrei com uma garrafa de vinho na mão pra ver a peça, e bebia no gargalo. Uma garrafa de vinho não era mais suficiente para me deixar bêbado. Mas era pra me fazer chorar. Vendo os esquetes que mostravam mini tragédias da vida de casal. Grandes brigas por pequenos motivos, chorei. Não pelo vinho, mas pelo filme que passava na minha cabeça nos momentos intenso que passei naquela mesma rua, num prédio mais acima.

Na segunda vez que fui ao banheiro, depois da peça, havia apenas duas. Em algum momento se desintegrariam. Fui pra casa dormir.

20160928_142343No dia seguinte encostei a cabeça no batente da porta da cozinha, meio sonolento, com a visão meio turva, olhei pro chão e vi poesia. Não sei se era a iluminação singular da manhã ensolarada. Pensava, de novo, naquelas grandes brigas por pequenos motivos. Uma louça a mais na pia, ou o lixo não jogado fora. Naquela cozinha só tinha eu. Sem brigas, sem ninguém. Apenas a iluminação perfeita sobre meus pés de uma manhã que começava. Eu sabia que precisava sair de casa para escrever. Precisava viver, de novas experiências, vencer a timidez, para me conectar com mais pessoas, uma boa caneta, um papel de qualidade ou um lápis que dava um contraste incrível num papel marfim. Motivações. O motor de ações, o que me moveria a fazer, a executar? CONEXÕES. Novas conexões. Sou um cara tímido, mas não posso me dar ao luxo, falo pra um público, às vezes médio, às vezes grande. Que, por sorte, quer absorver o que quero passar. Se interessam. Pra minha sorte, poetas vem falar comigo quando vou a saraus e meninas na rua também. Acho que tenho um olhar receptivo, mesmo que louco. Atraio muita gente, que vem falar comigo. No começo achava isso ruim. Até sentir essa necessidade de conexão, de interação humana.

Meus dias sempre começam na cozinha, pensando na vida. Chegamos a certo momento em pratoque achamos que estamos blindados de todos os problemas da vida, e então…- um prato cai. – Em câmera lenta, naquela fração alongada de segundo, todos os problemas pesam mais. Vão passando ali na frente dos olhos. Quando o prato bate, se estilhaçando em cacos irregulares, é a ilustração perfeita do caos para o cérebro. Nesse momento você não se segura e chora. Chora, sem controle… Somos frágeis assim. Desabamos com um prato que cai. Quando achei ter superado, calejado e fortalecido o coração ela me massacrou com um irônico “te amo, obrigada e perdoe. Te pago um vinho”. Ela não me amava. Mas eu me apaixonei por ela. Elena, eu a queria. Seu beijo era fermentado, triste e confuso. Era lento e doce. Na face um choro seco marcado na pele amarrotada. Tinha um corpo duro, tenro. Segurou minha mão e pediu – sem falar nada – pra acolhê-la. Com sono ela deitou e dormiu. Mal pisquei ou me movi, apenas deitei do lado dela, por trás, sentindo e observando a noite inteira sua pele macia, as tatuagens diminutas e os velus desordenados. A nuca frágil e inesquecível. Foi um momento sereno. Mas fui condenado a não mais dormir depois daquela noite. Hoje durmo pouco, como pouco, quase nada. Moro num bairro rico, num quarto de paredes mal pintadas. Quando tomo um banho quente, um filete de água gelada escorre pela minha nuca. O metro quadrado é um dos mais caros da cidade. O rolo que pintou a parede do quarto esbarrou no teto. E a cor? – verde merda.

Aquele filete de água gelada serve pra me lembrar de quem realmente sou. Essas coisas já me deram duras insônias. Esse filete de água gelada, realmente, não me incomoda mais. Abro a geladeira, pego três ingredientes e finjo comer algo chique. Tenho bons pratos, talheres e copos. A apresentação é impecável. Tenho amigos, que defino como tal, aqueles que me oferecem comida. Assim como não durmo muito, como bem pouco. Bastam uns cem gramas de qualquer coisa. Faço permutas por comida. Na minha geladeira, talvez um queijo, vinho e algo mais. Um pouco de cada por dia. Meu dia, a melhor parte dele, é meu banho quente. Será que moro num bairro rico mesmo? Porque, apesar de tudo, só eu estou sorrindo. Esse foi o dia que desconfiei amar essa cidade. E escrevi, pela primeira vez, sobre ela, um poema, no dia do meu aniversário.

UM DIA. EM SÃO PAULO, MAIS UM DIA
(16-10-16)

Os invernos e verões desse lugar

Paciência de uns esperando a chuva passar

O frio da chuva, o calor nublado

A garoa inclinada

Já vai parar

A chuva cai

Tempestade que enche a rua

Já vai parar

Estou molhado de suor

O nariz dói na noite fria de amor

O vento secou o olho e a dor

Vesti o casaco

Suei

Tirei o casaco

Pensei:

– Imagine,

Isso tudo

Em um só dia.

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