Não gosto de ler – Crônica

Eu lembro da aula que estudei orações coordenadas assindéticas. Mas na boa, não lembro da cara da minha professora de literatura ou gramática. Não sei nem se eram duas diferentes, uma de cada matéria ou se havia essa separação. Falo no feminino mas sem ter certeza se era mulher ou homem que assumia a aula. Mas eu lembro de uma coisa: Ela me fazia ler livros. E eu odeio ler. Sim, odeio. Em momento nenhum da minha vida eu parei, sentei e pensei “vou ler” ou “nossa, que vontade de ler”. Leio, Sem compromisso mesmo, pego qualquer coisa e leio, às vezes duas linhas e canso, às vezes um livro inteiro em algumas horas. Muitas vezes percebo que li uma página inteira, mas ma verdade não li. Se leio em voz alta, nem adianta. Só faço isso pra entender o ritmo do texto, então volto e leio para entender.
Esse ano que passou li uns 50 livros, mas na vida não passo dos 60. Essa senhora tentou me obrigar a ler dom casmurro. Colei na prova. Não queria ler nada que não estava afim, mas sem querer, descobri os contos de Machado e li, claro, aquele que não cairia na prova: “O espelho”. E pensava “por que essa obra de arte está escondida de nós e nos dão tanta merda pra ler?” Não que fosse merda, mas dom casmurro aos 16? Pelo amor de Deus. Defendo o menino dessa época. Realmente teria sido uma merda lê-lo. Ainda bem que ele não leu e passou de ano. Passou de ano conhecendo um só escritor: Machado. Apaixonando-se por tudo que encontrou de contos dele. O menino gostava de contos porque tinham sentido e também porque eram curtos e faziam pensar. Sempre tinham um desfecho inteligente e surpreendente.
Não gosto de ler e, assim como escrever, é algo que faço sem perceber. Entro num transe – digo -, peguei o livro, sei que estou lendo, mas eu absorvo. O que é diferente de lê-lo. Quando escrevo, esqueço. Às vezes tenho uns flashes bem distantes. Assim como das coisas que li. Se não leio no dia seguinte o que escrevi, não saberei da sua existência. Lembro do conteúdo de tudo que li, dos desfechos, das lições que tirei, das risadas que dei… mas não lembro de te-los, de fato, lido. O ato de ler, passar os olhos, virar as páginas, marcar, fazer anotações no canto da folha. Eu só lembro do seu conteúdo. E talvez seja isso. Por não gostar de ler, meu corpo me livra dessa situação e me leva direto ao ponto, àquilo que me satisfaz: absorver.
Não me sinto à vontade com livros emprestados. Parece que não sou eu mesmo lendo ali. A postura muda, o passar das paginas, o uso do marcador… acho que eu fico mais consciente do que to fazendo, acho que nesse caso, leio.
Eu gosto de dormir com os livros, abraça-los. Não controlo o que acontecerá no meio da noite, se babarei nele ou se o chutarei pra longe da cama. Leio comendo, passo a folha com as mãos sujas de manteiga, varios livros meus tem manchas roxas de vinho, às vezes, marcas de lábio, tambem roxas, pois seguro ele com a boca enquanto mijo.
E no final esqueço todo esse processo, talvez por isso eu deixe marcas tão significantes neles.
Eu geralmente dou meus livros, pra quem eu ache que vá sentir o mesmo que senti ao absorve-lo. Bem, se forem raros, eu empresto, mas deixo claro que não os quero tão cedo e, se vier sem nenhuma mancha ou orelha, não aceitarei de volta.
Eu poderia ouvir um texto, ver um filme ou assistir uma peça. De todos eles lembro do processo, do caminho. Mas no livro não. Com o livro até chegarei ao mesmo destino, mas esquecendo de como fiz pra chegar lá. E relaxa. As marcas que deixei, trilham meu caminho de volta.

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