CONTO – Caralho, Fernanda! (+18)

As mais magrinhas sempre me atraíram mais. Dançava na minha sala ao som de qualquer som, fosse música ou não e falava das cores das cidades. Quando esteve em Budapeste demorou um pouco pra perceber que a cidade era amarela. Budapeste também era um dos seus livros e filmes favoritos e me fez escrever, como na história, em sua pele com caneta permanente. “no outono, Budapeste… era linda”, suspirava, “eu me sentia em casa. Sabia pra que lado virar ao sair de casa, onde fazer compras, o horário da missa. E a igreja… Com todas as cores, um vermelho aveludado e um azul naval — sério? azul naval?! — que dava um tom de contos de fadas àquela nave. O grande navio em que se sentavam os fiéis envoltos de um grande azul, azul do mar, que eram aquelas paredes.”— Quando ela falava, parecia uma louca, olhando pro nada com uns monólogos de filme de época — “Eu sinto que nunca, realmente, me apaixonei. Apenas vivi momentos de intensa euforia.”, disse em seguida, sem perceber que tinha se apaixonado pelas cores de lugares como Budapeste e Atacama. Acabara de descobrir que, na verdade, amava as cores.

Cem horas, faz cem horas que eu a conheci. Ela me abordou enquanto eu estava indo para casa, andando num domingo na Avenida Paulista. Parei pra tirar foto de uma pintura a giz feita no asfalto. Quando levantei a cabeça, ela passou me encarando e continuou assim; virou de costas e andando de costas por alguns metros, sem tirar os olhos de mim, parou, veio na minha direção e disse: “tá de parabéns”. “Que homão da porra”, comentou pra ela um de seus amigos. Estávamos indo para o mesmo lado, ela com dois amigos pro Centro e eu pra casa. Por 10 minutos conversamos, ela me deu o número dela. Desci na Brigadeiro e ela seguiu em frente. No dia seguinte trocamos mensagens por 5 horas seguidas e marcamos de nos ver.

Na quarta-feira, feriado de 12 de outubro, resolvemos nos encontrar no mesmo lugar do primeiro encontro. Andamos pela Paulista, Augusta, Frei Caneca, andamos, andamos… Foram 11 horas de assunto sem fim. Resolvemos ir pra minha casa tomar um vinho. Eu li pra ela meus poemas favoritos de Vinícius e Drummond. Li também os meus, e então, as prosas. Foi a primeira vez que ouvi meus textos em voz alta. Por mais desajeitado que fosse minha fala, eu estava à vontade com ela e descobri que precisava dela pra escrever.

“Não vamos transar hoje, que fique claro”, ela disse. “Tudo bem. Não tô afim também.” Não foi preciso mais que duas taças de vinho pra ela subir em cima de mim, ali, no sofá da sala. Transamos de roupa. Depois pediu uma massagem. Descobri que ela não estava tão condicionada a andar, como eu. Ela também não estava condicionada a resistir massagens. Tirou a roupa e todos os bloqueios que tinha montado em sua cabeça ao sair de casa. Fudemos nessa noite. Deitados na cama rodeados de livros de poetas marginais e cadernos de textos aleatórios, que iam de pequenos poemas à listas de compra do semestre passado. Conversamos por algumas horas ali.

Das 11 primeiras horas que ficamos juntos, não existiram silêncios constrangedores. E de conversa, o único momento em que não o fizemos, foi enquanto fudemos – Nesse momento, apenas imperativos.
Eu sentia que ela era minha metade. Mas, de certa forma, era mesmo a metade de mim, com seus 47 quilos e eu com meus quase 95. Chegamos a 100 horas de intimidade e parece que já fizemos e falamos de tudo. Eu olhava muito pra ela e ela devolvia, sem desviar. “O ato de encarar é uma das coisas mais lindas que podem acontecer. Desde os primeiros minutos eu fiz isso com você e foi assim até na cama”, ela falou, cravando os olhos nos meus, mas parecia ter um pouco de medo de mim. Eu a comia com os olhos e a olhava com minhas mãos.

A cada minuto de conversa, cem palavras nasciam no papel. Como eu estava dependente dela pra escrever. O vinho já está no final. E segue aquela duvida: “devo ou não abrir outra?”. O pensamento de “meia garrafa seria perfeito”, mas tenho certeza que seriam 2 meias garrafas no final. Além disso, minha casa não é lugar de meias-garrafas. Abri outra, então.

hhhEscrevo para ver mudar o jeito que as mulheres me olham. Pelo seus olhares, sei que estão mastigando lentamente minhas palavras, ainda frescas, saboreando o que foi lido na noite anterior. Olham e, às vezes, se perdem. Esquecem que estão me encarando, evidentemente imaginando coisas sórdidas. Ninguém foi tão sincero com elas como eu sou com o papel.

Elas gostavam do meu jeito. Entenda, é preciso, de vez em quando, assumir uns erros para ser admirado. Mesmo que não os tenha cometido. E o erro que deveria admitir, e que foi muito bem cometido, foi de ter bebido demais na noite anterior.

Existe um momento, um espaço de tempo funcional de operação, entre o sono e o porre, onde nasce o pensamento filosófico. É o momento em que começo a beber. Com ela, observo sua cara enquanto diz: “você está com cara de quem quer falar algo” e descubro que essa é sua cara de quem quer falar algo.

Então, entre um vômito e outro na privada, comecei a falar sobre a vida e cu, que na minha visão são confluentes:

— A maioria das pessoas vai passar a vida sem ver o próprio cu ou sua expressão enquanto goza. Estranho pensar que muitos passarão a vida sem ter se explorado completamente e ainda ficarão frustrados por não ter conhecido o mundo. Muitos vão se ajoelhar na frente da privada e ter a lembrança de um grande porre. Mas hoje, de porre, ajoelhado aqui, tenho uma vívida memória do cheiro de cloro rasgando as narinas e a ardência nos olhos, parecendo sangrar. Essas pessoas calejaram seus joelhos, mas os olhos e as narinas de quem se conhece, jamais vão a nada se habituar.

Por algum motivo, ela ficou puta e foi embora. E eu abri outra garrafa de vinho, branco dessa vez, me dava a sensação de não alcoólico.

Que porre! Abri os olhos devagar. Pelo menos estava sozinho na cama de casa. No chão uma camisinha cheia. A noite foi longa, aparentemente, mas não faço ideia de quem apareceu por aqui. Já é meio dia. Provável que eu tenha ido dormir já de manhã. Tô sem sono, geralmente preciso de umas 5 horas no máximo pra isso. No celular uma mensagem da Fernanda:

“Relaxa. Eu não tô apaixonada por você. Eu apenas gosto de andar a margem, no parapeito da vida e do amor. Eu quero ficar no limite. Olhar pra baixo e ver o abismo sem cair. Ventos fortes que batem não assustam meus pés pesados. Estão colados no chão. A melhor parte de estar na beira é esse vento que bate. Eu não sigo regra alguma. Eu tiro o miolo. Eu como o miolo e jogo fora o pão. E se você não consegue entender metáforas ou parábolas, apenas pare e não me pergunte mais nada. Eu gosto de você assim, calado.”

É, ela se apaixonou e está resistindo. E que porra de mensagem, até curou meu porre.

Na quarta-feira ela voltou e foi direto pra cama, tirando a roupa pelo caminho. Quando dsc_3392subi na cama, dei um coice na taça de vinho que estava na cômoda. Não liguei muito. Tirei o notebook da cama e botei no chão. Os livros, como sempre, continuaram espalhados na cama e ali fudemos, do lado do poema sujo do ferreira Gullar. Transamos uma – dormimos; duas – conversamos; três – discutimos. Saí da cama e fui pegar uma vassoura. Juntei os cacos no canto do quarto. Nem fudendo que ia limpar aquilo àquela hora da noite.

Dei a volta na cama e vi minhas 150 páginas de história sendo lentamente apagadas. Deixei meu fone de ouvido em cima do teclado que pressionava a tecla backspace. Foi uma cena linda de ver. Principalmente porque nada do que eu tinha escrito hoje tinha sido salvo. E lentamente sendo apagado, fudeu todos os salvamentos automáticos. Quando batia meia noite, eu virava um capeta, altamente implicante. Ela sempre saía daqui de casa me odiando. Com uma cara PUTA. Uns minutos depois de ela ir eu recebi uma mensagem: “hoje eu me detesto por não te detestar, seu filho da puta”. Hoje eu não me detesto por nada, mas tudo está se desfazendo. Taças, textos e transas de quarta-feira.

Antes de sair ela disse:

— Se cuida — Ah, pra quê…

— Eu me cuido, só não espere atitudes normais de pessoas que não são. Lembra que foi por isso que você gostou de mim, em primeiro lugar? Eu me cuido do meu jeito. Caralho, vou rabiscar as paredes da sala, dormir com livros, deixo de comer e dormir se meu corpo pedir. E beberei no meio da semana. Pode ter certeza que acordarei bem no dia seguinte e trabalharei bem, porque, antes de tudo, sou ótimo profissional. Só não vou dormir com ninguém durante a semana, pra evitar as pessoas que sugam.

Eu falava demais, bêbado e sempre acabava dormindo sozinho.

Durmo em meio a livros de poetas surrealistas, meu cobertor não combina com o lençol ou com a fronha do travesseiro, mas são quentes e confortáveis, nessa noite fria. Na escrivaninha folhas e mais folhas de contos e poemas inacabados. Goteira no chuveiro. De vez em quando, a luz, mesmo apagada, pisca. Fico inventando coisas para pensar – não quero dormir – quero me punir. Preciso acordar cedo. Mas no fundo, não quero dormir. Quero acordar mal. Acendo as luzes. “Será mesmo que precisamos de tanta comida assim? 3, 4 refeições diárias? Por que não só uma ou duas? Às vezes nenhuma.” Estou há 24h sem nada, nem comida nem líquido decente, só vinho. A fome está ligada à ociosidade. Talvez não a fome, mas a vontade de comer, de preencher espaços vazios. Encher as lacunas com comida. Mais uma punição.

Apago as luzes. Silêncio demais, meus pensamentos parecem gritar. Não me deixam dormir. Logo, logo o corpo entra em modo de economia de energia, por falta dela.

No sábado, cometi o erro de leva-la ao meu bar. Aquele que é só meu, onde vou me esconder e escrever sozinho.

Era a hora 312 do nosso relacionamento caótico e enfrentamos o primeiro silêncio. Ela estava com ciúmes. Do meu último texto, que eu dizia ter transado com uma menina de dreads no ônibus vindo do Rio pra São Paulo, semana passada. Ela queria saber se era real. Se eu tinha, de fato, estado com outra. E ela dizia que estava com outros durante o fim de semana. Eu não ligo, de verdade. Mas ela tentava me cutucar. Dizia que não era ciúme e que apenas estava incomodada de não saber o que tinha acontecido.

“O vinho tá batendo”, falei. “Eu não sou sua vizinha”. “que?” “você carrega sua vizinha pra casa, ela te carrega, sei lá. Eu não sou sua vizinha”. —sem ciúmes, né? — “essas vagabundas dadeiras.” Sobrou até pra vizinha, que virava uns copos comigo de vez em quando.

Ela começou a mexer no meu celular, procurando mensagens, conversas, mulheres. Eu me incomodei e virei o vinho, sem querer, na mesa. Por obra do capiroto, creio, umas quatro mulheres me mandaram mensagem nessa noite. A cada uma, uma notificação aparecia, com o nome. “quem é Carol?” “quem é Paula?”. Ela tentou pegar o celular a força. Eu arranquei da mão dela. O que será que ela está querendo?

Eu desbeberia uma das garrafas de vinho das três que tomamos se eu soubesse que a desbeberia a força no dia seguinte.

Comecei a olhar coisas no meu celular, pra acalmar. Ela olhou um vídeo meu, no celular que tinha arrancado da mão dela e disse:

— Olha, você ficou bem nesse vídeo.
— Verdade, eu fico bem em 5 polegadas
— Você fica bem em tudo, principalmente entre minhas pernas.

E puta que pariu, fomos pra minha casa porque, afinal, eu queria encher a bunda dela de porrada.

Chovia caralhos voadores, entramos no táxi e fomos.

Chegando, meti a chave sem muita pressa, abri a porta e deixei ela entrar.

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Ficava sempre surpresa ao ver que eu tinha saído de casa e deixado as janelas abertas.

— E se chover, ventar, sabe lá… e destruir as coisas?

— Essa é a graça. Imagina todo dia não ter certeza se vai encontrar a mesma casa que deixou pra trás. Essa casa sou eu. Essa casa, pouco a pouco, terá suas paredes pintadas, mudará a cada saída e chegada, a cada mulher e a cada trepada, mudará a cada fim, ou de semana, ou de jornada. Por isso deixei a última parede da sala parcialmente pintada.

Olha, ela gostava mesmo era de força. Da intensidade dos meus textos e das metidas quando estava de quatro. Tapas e puxões não podiam ser intermediários. Doía-me a mão, parecia que quebraria aquele corpo de 47 quilos a qualquer momento. Em muitas situações, forma de pensar ou ver a vida, somos a mesma pessoa. Seria nossa transa uma grande masturbação transcendental?

No final dessa noite na minha cama, lendo uns textos e poemas antigos, de uns 10 anos atrás ela me perguntou “o que aconteceu com esse cara?”. “quebrou.”, respondi. “ele parecia apaixonado.” Parei, olhei pra ela, nos olhos e disse “Ninguém aguenta ficar apaixonado assim por tanto tempo, é uma ilusão. No fundo ele só estava deprimido.”

Foi a última vez que ela foi la em casa. Não que não gostássemos. Mas pareceu certo ninguém procurar o outro. Acho que, sem querer, nos conectamos demais, para ser apenas uma transa de meio de semana.

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