Anseio – Conto

Virando a esquina vinha um casal. A mulher não sabia que o homem participava ativamente de mais outros dois casais. O homem não sabia que a mulher não participava de casal nenhum. Ambos se gerenciavam, consultando a agenda do celular: tenho tempo quarta a noite, sábado entre meio dia e três horas, domingo só no fim da tarde. Ficou acordado às quartas feiras, pois ninguém precisa arruinar o final de semana do outro. E se tiver jogo? E se tiver algo melhor pra se fazer?

A mulher entrou na farmácia. O homem ficou do lado de fora, acendeu um cigarro, enrolou a coluna e encolheu os ombros sentido as temperaturas baixas do outono. Mesmo se ele não fumasse – e ele desejava profundamente não fumar – sairia fumaça das suas narinas e de sua boca. Era o ar que vinha de cada pulmão, se condensando e fazendo-se perceber. Três, quatro tragadas e a mulher ressurge pela porta automática. Ela deveria ter reaparecido antes, mas a porta não abria. Foi um período curto de tempo, mas veio à mente o episódio dos simpsons em que o Bart vende a alma e as portas não abrem mais pra ele. Ela riu por dentro, mais de nervoso do que de graça. Deu um passo para atrás, outro pra frente e pôde sair de dentro da loja.

Os dois andaram lado a lado em silêncio e sem mãos dadas por mais uns trezentos metros. Pararam em frente ao prédio onde ele morava. Ele abriu a porta da rua, ela abriu a porta da portaria, ele abriu a porta do elevador e logo em seguida a porta de casa. Se tirassem a cor do mundo e tocassem um piano, poderia ser um filme antigo, com movimentos ritmados e cíclicos. Mas as portas se fecham e já não há mais necessidade para gentilezas. Ela larga o casaco em cima do sofá turqueza – que ela julgou na primeira vez em que viu – tira os sapatos e avisa: “vou pegar uma água, já volto.”. Ele a observa ir com a mesma cara de quem tenta dividir de cabeça 17856 por 13. Não importa quantas mulheres ele tenha conhecido pois, uma vez passada a barreira do sexo, ele não entende mais nenhuma delas.

Enquanto ela voltava da cozinha com um copo e uma jarra de água na mão, ele ligava a TV e se acomodava naquele sofá que não foi ele quem escolheu, claramente. Ela tomou um, dois, três copos e ele colocou no Esporte Espetacular. Tocou na mão dela, fazendo carinho com o polegar. Ela permaneceu imóvel. Quinze minutos, três comerciais de supermercado e mais três outros de novela depois ela se levanta e vai ao banheiro. Ele pega o celular, vê se uma das outras se manifestou. Nada. É como se elas entre si administrassem a agenda juntas.

Ela sai do banheiro com um sorriso muito sincero no rosto. Acho que ele nunca a viu assim. Ela olha pras mãos, como se tivesse acabado de ouvir um comentário sarcástico, sorri com o canto da boca e diz: “Não tô grávida, vou pra casa.”. Ele não sabia nem que existia essa possibilidade, achava que ela havia entrado na farmácia pra comprar pastilha valda, não sabia o que dizer. De boca semi aberta, tentando não olhar para a TV, segura o olhar entre a cintura dela e os seus olhos. Ela, colocando as botas e fechando o casaco diz “Ah, quarta feira não vai dar, ok?”.

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