Morte – Crônica

A primeira vez que eu vi a morte foi em Outubro do ano passado. Ela tem mais ou menos o dobro do meu tamanho com metade do meu peso. Eu tive certeza, muita certeza de que ela era a personificação da ceifadora.

Não que fosse óbvio ao primeiro olhar pois, de algum modo, parecia que eu era a única que se deixou hipnotizar pela sua face. E pensei: “Ela é a mais bonita desse lugar!” porque não havia tantas outras possibilidades assim a ponto de se deixarem eleger para tal título.

Seus olhos eram profundos e, em teoria, claros. Para mim pareciam apenas absorver a luz, da profundeza de sua escuridão. E em um lugar onde as pessoas já têm a aparencia opaca, é claramente falta de educação da sua parte retirar o pouco de luz que permeia as outras pessoas ao seu redor.

E de um lugar para o outro ela se arrasta, como se os seus quarenta quilos lhe fossem mais do que ela poderia carregar. Ela se curva, fazendo a sua coluna parecer um espiral, como se seu crânio fosse um espinho perpendicular a um tronco delgado e os braços e as pernas fossem galhos secos, encurvados, sem nenhuma esperança de vida.

Aquela mulher parecia a aparição de um quadro de Goya – grotesca, sublime, apavorante e hipnotizante. E enquanto o mundo inteiro parecia uma nuvem sem definição eis que a morte me olha e fixa seu olhar em mim. E o buraco negro dos seus olhos se esvaiu – uma antítese de qualquer paper da física – e ela sentiu raiva. Eu desviei o olhar e me desencantei. A morte era apenas um resto de mulher.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s