Álbum da copa – Crônica

Do outro lado do quarto, eis o que eu via: Uma estante, um gato, muita informação, quer dizer, um caos visual. Tudo meu. Eu sou assim mesmo, esse caos. Estava tentando entender exatamente o que eu queria da vida, ou de mim, ou do mundo. E o que acontecia naquele momento era exatamente o problema de toda essa indagação: eu quero muitas coisas que, opostas, não podem coexistir. E isso é ser mimado, não é mesmo?

O gato acordou, olhou pra mim, deu um miado, PUTO da vida, se eriçou todo e saiu para o jardim. Esse gato, é claro, entende mais de si mesmo do que eu de mim. O filho da puta é decidido e acertivo- quando ele quer carinho ele vem, quando não quer ele me morde, mia alto, faz cara de puto e sai. E eu que nem um pedaço de carne amaciado, ainda na cama, às duas da tarde de um domingo – o dia mais depressivo da semana.

Olhei o celular uma, duas, dez vezes.Trinta e quatro mensagens: umas dez de um grupo e todas as outras (faça você a conta) de pessoas aleatórias. Gente que me conhece desde criança, gente que nem me conhece. E eu pensando “pra que, senhor, eu falo com essas pessoas? De que maneira o meu ego pode ser tão mesquinhamente amaciado por essas mensagens vazias? Meia duzia de rostos bem” – e eu enfatizo abrindo os olhos e pressionando os lábios -“beeeeem proporcionados… enfatizando a minha própria beleza. Pra que isso? Por que eu preciso tanto disso?”

Levanto da cama e o meu corpo ainda marca o lençol como se ali eu estivesse, tal como um cadáver, por semanas e semanas a fio. E assim eu me sentia na verdade. E na verdade, na verdade mesmo, há duas semanas que eu saio de casa quase que diariamente. Pra jantar, pra trabalhar, pra beber. Cada dia com uma dessas caras. Eu me apaixono por todas elas – TODAS- é verdade, porque eu sou assim. O problema é que nenhuma dessas caras entende que essa minha paixão é assim bem superficial. Que no meu coração cabe espaço para cada um desses rostos, mas passa assim que eu não mais os ver. Todos são importantes e fazem o meu peito queimar, mas assim que se vão se vai também o sentimento.

Como e exatamente como um álbum de figurinhas. Até você conseguir as últimas dezessete figurinhas que faltam, é como se você vivesse um romance com cada uma delas: um valor inestimável que se sente no tato, ao facear aquela ausência marcada por um retângulo na folha de papel. Na sua cabeça se passaram mil vezes aquele filme de como seria o momento exato em que você abrisse o pacote e lá ela, a número cento e cinquenta e sete, estivesse, entre uma multidão de quatro outras que você já viu e viveu e portanto não importam. Mas lá está ela com um brilho celestial se destacando das demais. E aquele retângulo vazio é coberto vagarosamente. Alinhando primeiramente as pontas, Um filme pornô para os amantes do stêncil. Cada milimetro da superfície autocolante faceando o papel couché brilhante 90 gr/m², com o dedo indicador pressionando suavemente, indo de um lado ao outro de seu pequeno corpo, como uma máquina de escrever, até selar completamente e findar o nosso romance.

E assim, deslizando o polegar na tela, com a mensagem padrão no control+ V eu disparo: “vai fazer o que hoje?” e deleto em seguida as figurinhas que eu já tenho no meu álbum, bem assim mesmo, superficial.

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