Amor – Crônica

A mão tateando no escuro, seguindo o fio até encontrar o interruptor. A luz fraca da luminária acende gradualmente: eram 3:41 AM. A mão sobe a cabeceira, pega o óculos e o mundo termina de se acender. Às vezes tem dias em que enxerga-se mais e melhor, às vezes parece uma página d’O Ensaio Sobre a Cegueira. Mas esse livro dá angústia e os pensamentos voam de volta para o momento. As folhas de papel, a lapiseira, tudo fica engatilhado ali mesmo, na cabeceira. É que a cabeça esses dias tem estado trabalhando mais que o normal e, às vezes, colocar o pensamento no papel é tirar ele da mente.

Mas o que escrever? Eles não vão ler. Ninguém vai ler. Se eu escrever mal – pensou enquanto mirava a folha – tudo bem, ninguém vai ler.

E começou o ruído nervoso do grafite sendo devorado pela celulose: “Amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor” em todas as grafias, ou repetidamente na mesma letra, como se houvesse uma punição, como se o amor tivesse faltado, como se o tivesse desrespeitado, como se o tivesse desmoralizado. E a linha saiu das letras e se embolou em rabiscos abistratos. Largou a lapiseira, porque escrevia com a mão esquerda, e deslizou os dedos até a virilha até onde a moral não vê. Se tocou uma, duas, cinco vezes. Até as costas suarem, até machucar o sexo, até não ter amor nenhum. Deixou o lençol sujo, foi ao banheiro, limpou-se e pegou o papel novamente – eram 4:14 AM.

“Branco”. Não vinha nada. Vinha a sensação do toque novamente e os pelos dos braços se eriçavam. Olhava as fotos amontoadas numa caixa sem tampa. Olhava o celular e a hora passando. E escrevia as palavras que vinham à cabeça “macarrão, pedras, porra, olhos, eu te amo, não” e nem com elas e nem com nada do que lhe ocorria conseguia formar algo que lhe parecesse razoável como narrativa. E assim, já com os olhos pesados, concluiu que não lembrava mais do amor – não como entidade mitológica, espiritual e onipresente, mas como a troca do sentimento – mas não deixaria nunca de esquecer o tesão: na pele, no pêlo no sexo.  Virou-se para o lado, transpassou os braços pela silhueta escura que repousava ao lado e dormiu às 4:57 AM. Às vezes o que acaba é o amor, às vezes o que acaba é o tesão.

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