Dois ou três – ou uma só

Ricardo existia e existia André.
Ambos amavam a mesma mulher.
Ricardo amava denso, André amava doce.
Ricardo estava quando não estava André,
mas André quase sempre estava.
Ricardo fodia, André comia.
E Ricardo dizia
“me fode, sua vagabunda” e apertava forte sua cintura.
Segurava seus cabelos e seu pescoço
às vezes era bom,
às vezes não.
André olhava nos olhos, doce e seguro, e mexia nos cabelos dela enquanto metia.
E sussurrava em seus ouvidos elogios nobres.
E ela não amava ninguém.
E não sentia mais amor no toque.
Sentia tesão e pena, raiva e ternura,
mas não sentia amor.
Olhava com os olhos de cobra morta
secos, escuros, vazios.
Olhava-os dormir em suas camas e não sentia nada.
Passava os dedos pela linha das costas dos dois, que sentiam o toque como carinho.
Ela sentia o toque como toque.
E colocava o sutiã, a calcinha,
passava no banheiro antes de ir embora.
Saia nas ruas olhando para o céu, procurando sinais.
Seguia a linha do horizonte marcada por montanhas e prédios,
pensava no dia de amanhã: “falta papel higiênico”.
Olhava para os pés, para as janelas apagadas.
Não olhava pra trás.
Ricardo mandava mensagens obsessivas, lhe prometia o mundo.
Era passional no amor e no crime.
André era a sombra fresca da árvore e lhe dizia
para não se preocupar: “eu te tenho amor, todo e qualquer tipo dele.”
E no dia em que ela se foi
Ricardo matou uma puta e sumiu
André levou a cachorra para passear antes do trabalho
porque terça-feira era o seu dia.

(Os Mazzaropis)

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