Capítulo VINTE

As mais magrinhas sempre me atraíram mais. Ela dançava na minha sala ao som de qualquer som, fosse música ou não. Ela falava das cores das cidades. Já esteve em Budapeste e demorou um pouco pra perceber que ela era amarela. Budapeste também era um dos seus livros e filmes favoritos. Ela me fez escrever, como na história, na sua pele com caneta permanente. “no outono, Budapeste… era linda”, suspirava, “eu me sentia em casa. Sabia pra que lado virar ao sair de casa, onde fazer compras, o horário da missa. E a igreja… Com todas as cores, um vermelho aveludado e um azul naval que dava um tom de contos de fadas àquela nave. O grande navio em que se sentavam os fiéis envoltos de um grande azul –  azul do mar – que eram aquelas paredes.” – “Eu sinto que nunca, realmente, me apaixonei. Apenas vivi momentos de intensa euforia.”, disse ela em seguida, sem perceber que tinha se apaixonado pelas cores dos lugares como Budapeste e Atacama. Ela amava as cores, mesmo sem saber. hhh
Faz 100 horas que eu a conheci. Ela me abordou enquanto eu estava indo para casa, andando num domingo na Avenida Paulista. Parei pra tirar foto de uma pintura a giz feita no chão da paulista. Quando levantei a cabeça, ela passou me encarando e continuou assim, virou de costas e andando de costas por alguns metros me olhando, parou e veio na minha direção. “tá de parabéns”, ela disse. “Que homão da porra”, comentou pra ela um de seus amigos. Estávamos indo para o mesmo lado, ela com dois amigos pro Centro e eu pra casa, por 10 minutos conversamos, ela me deu o número dela. Desci na Brigadeiro e ela seguiu em frente. No dia seguinte trocamos mensagens por 5 horas seguidas. Na quarta-feira, feriado, resolvemos nos encontrar naquele mesmo lugar da paulista. Andamos pela Paulista, Augusta, Frei Caneca, andamos, andamos… Foram 11 horas de assunto sem fim. Resolvemos ir pra minha casa tomar um vinho. Eu li pra ela meus poemas favoritos de Vinícius e Drummond. Li também os meus, e então, as prosas. Foi a primeira vez que ouvi meus textos em voz alta. Por mais desajeitado que fosse minha oratória, eu estava a vontade com ela e descobri que precisava dela pra escrever. “não vamos transar hoje, que fique claro”, ela disse. “Tudo bem. Não tô afim também.” Não foi preciso mais que duas taças de vinho pra ela subir em cima de mim, ali, no sofá da sala. Transamos de roupa. Depois pediu uma massagem. Ela não estava tão condicionada a andar, como eu. Ela também não estava condicionada a resistir massagens. Tirou a roupa e todos os bloqueios que tinha montado em sua cabeça ao sair de casa. Fudemos nessa noite. Deitados na cama rodeados de livros de poetas marginais e cadernos de textos experimentais, conversamos por algumas horas. Das 11 horas que ficamos juntos, não existiram silêncios constrangedores. E de conversa, o único momento em que não o fizemos, foi enquanto fudemos – Nesse momento, apenas imperativos. –  Como a música do Chico: ela é carioca, assim como eu. Já fomos juntos ao Rock in Rio, Olimpíadas e varias vezes à paulista aberta. E foi ali, domingo, na Avenida Paulista que nos conhecemos, depois de anos nos esbarrando pelo Rio de Janeiro. Em certo momento por lá, paramos, na esquina da Augusta com a Paulista, olhando pro sentido Jardins, fiquei olhando aquela luz – azul platinada – compondo o cenário daquilo que eu considero “Lar”. Eu sentia que ela era minha metade. Mas, na verdade, era mesmo a metade de mim, com seus 47 quilos e eu com meus quase 95. Em 100 horas de intimidade, parece que já fizemos e falamos de tudo. Eu olhava muito pra ela e ela também. “o ato de encarar é uma das coisas mais lindas que podem acontecer. Desde os primeiros minutos eu fiz isso com você e foi assim até na cama”, ela disse. Ela parecia ter um pouco de medo de mim. Eu a comia com os olhos e a olhava com as minhas mãos cheias de calos.

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